“Quando o Cuidado Falha, a Dor Grita: Rastros de Existências Silenciadas”

 “Por Trás do Grito, o Silêncio: Fragmentos do Que Não se Viu”


As narrativas compartilhadas ao longo da Oficina de Clínicas do Cuidado revelam não apenas histórias singulares, mas o retrato de um país que ainda falha no cuidado — especialmente com os corpos mais vulnerabilizados. Crianças e adolescentes institucionalizados, mulheres atravessadas por violências cotidianas, jovens vítimas do abandono afetivo e social, profissionais marcados pelo cansaço ético e afetivo: cada relato carrega em si uma potência de denúncia, mas também uma convocação ao afeto.

São histórias de vidas empurradas para a margem, tratadas como “casos” ou “problemas”, quando, na verdade, clamam por escuta, vínculo, presença. Em cada narrativa, o sofrimento psíquico não aparece como algo abstrato, mas como consequência direta de vínculos rompidos, da ausência de acolhimento, do excesso de normatização e da lógica de exclusão que ainda estrutura muitas práticas institucionais.

Ao mesmo tempo, há uma força pulsante em cada história. Uma fagulha de resistência que se revela no desejo de cuidar, de fazer diferente, de não repetir as violências. Os relatos mostram que, quando o cuidado é genuíno — ético, afetuoso, implicado — ele tem o poder de ressignificar destinos. Não se trata de “salvar” ninguém, mas de reconhecer que cada sujeito tem uma história, um desejo, uma dor, e que nenhum sofrimento deve ser naturalizado ou inviabilizado.

Essas narrativas nos lembram que o cuidado começa no detalhe: na escuta que não julga, no olhar que sustenta, no silêncio que acolhe, na palavra que reconhece. E que, mesmo diante da dor e do desamparo, é possível abrir espaço para o recomeço.

Ao final, o que fica é a certeza de que cuidar é também se deixar afetar — e que cada encontro, por mais breve que seja, pode ser transformador.


"O cuidado não é luxo, é sobrevivência. Onde ele falta, nascem abismos – mas também resistências. Que possamos seguir escutando o que o mundo insiste em silenciar.


"Érica Marques
Psicanalista & Assistente Social








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