Onde o Pé não Dói: A Liberdade de Respirar Sossegada
Escrever é, para mim, abrir as janelas da alma. Há um ano, eu escrevia com o peso da busca, com a angústia de quem pedia licença para entrar nos espaços do Serviço Social. Eu ainda era a Érica que buscava o "sim" do mundo. Hoje, aos 53 anos, sento-me para escrever uma nova página, mas com uma diferença fundamental: eu parei de esperar que o mundo me desse um lugar. Eu construí o meu.
Olho para o meu corpo hoje e ele me conta histórias. Meu joelho dói, e eu entendo o porquê: ele carregou o peso de décadas de pé em pé no salão, carregou o peso de uma mãe solo que não podia fraquejar, carregou o sustento da Ohanny e o luto da minha mãe, Sandra, que perdi tão cedo, aos 14 anos. Meu joelho reclama do esforço de ter sido o pilar de tanta gente. Mas, curiosamente, meu pé tem uma fratura que não dói. Talvez seja um símbolo: meu pé já se acostumou tanto a caminhar sobre pedras que ele aprendeu a seguir em frente mesmo quando está quebrado. Eu sou essa mulher que pula do carro em movimento para não morrer, e que levanta, limpa o sangue e continua andando.
Hoje, eu moro sozinha e, pela primeira vez na vida, o silêncio da casa não me assusta; ele me acalenta. Minha filha e minha neta, Manu, estão na Itália. O coração aperta de saudade, mas eu escolhi ficar. Escolhi fazer do meu jeito. Depois de uma vida inteira tentando agradar, cuidando dos agregados da minha avó, lidando com a infidelidade e com a violência, eu finalmente me dei o direito de ser a minha prioridade. Não vou para a Europa para ser mais uma; fico aqui para ser a Érica que eu sempre sonhei ser.
A tesoura e o secador ainda estão nas minhas mãos, e sou grata a eles — foram eles que pagaram os boletos e venceram a fome quando a pandemia fechou as portas e eu precisei vender batata rostie para sobreviver. Mas sinto que esse ciclo está findando. Meu chamado agora é a escuta. Atuar como assistente social com mulheres vítimas de violência não é apenas um trabalho; é um acerto de contas com o meu passado. Cada mulher que eu acolho é um pouco daquela menina que não teve a mãe por perto para protegê-la.
Estou me formando em Neurociência, mergulhando na Psicanálise e descobrindo que a maior cura é entender a própria história. As duas pacientes que tenho hoje valem mais do que uma agenda cheia de vazio. Elas são o começo da minha nova colheita. Passo em processos seletivos, estudo, e não tenho mais a ansiedade de antes. O "sim" que eu tanto buscava lá fora, eu encontrei aqui dentro.
Sinto falta da minha mãe, Sandra. Queria que ela visse a bisneta, que ela me visse estudando, que ela soubesse que a coragem dela renasceu em mim e na Sandra Ohanny. Mas sinto que, quando eu sorrio, é o sorriso dela que aparece no meu rosto. Eu venci o câncer de ovário, venci a agressão, venci a invisibilidade.
Hoje, eu não sou mais a assistente social que espera uma oportunidade. Eu sou a mulher que respira sossegada. Eu sou a dona da minha história. E se a dor ainda visita de vez em quando, eu a recebo com um chá, choro o que tiver que chorar, e depois volto para os meus livros. Porque agora, ninguém mais me diz para onde ir. Eu já cheguei em mim.
Érica Conceição Marques
Rio de Janeiro, 8 de Fevereiro de 2026.



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